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As representações da mídia televisiva sobre as mortes violentas na fronteira Brasil/Paraguai

     A pesquisa realizada teve como objetivo analisar as representações das mortes violentas na mídia televisiva na região de fronteira Brasil/Paraguai, por meio do estudo dos telejornais “Tribuna da Massa” de Foz do Iguaçu/Brasil e “24 Horas” de Ciudad del Leste/Paraguai. Em grande medida, utilizamos o método comparativo para compreender como ocorre as representações dessas mortes na mídia televisiva, para tanto, selecionamos dez notícias de mortes violentas em cada telejornal. O recorte temporal foi de maio a julho de 2017 para o programa brasileiro e os meses de janeiro a agosto de 2017 para o programa paraguaio. O recorte destinado ao programa paraguaio foi maior devido às taxas de mortes violentas serem mais baixas que as apresentadas no Brasil.

     Por meio das comparações, entre as maneiras de representarem as mortes violentas nos dois telejornais, foi possível perceber os padrões de manipulações e endereçamentos. Apesar de possuírem abrangências e modelos de apresentações diferentes, compartilham de endereçamentos e padrões globais comuns. As maneiras de representar as mortes são distintas, no que diz respeito a exibição das imagens dos corpos, porém, a construção das reportagens e do discurso possuem aspectos similares.

     Os temas de violências e letalidades são temas recorrentes na mídia, devido serem temáticas de grande audiência e que alcançam maior espaço no mercado. Para compreender a influência das representações da violência e das letalidades na mídia, tornou-se necessário compreender os conceitos de representações coletivas e sociais, pois são por meio das representações que estabelecemos significados dos pensamentos e das ações dos indivíduos.

    O “poder” da mídia de influenciar os indivíduos ao retratar o cotidiano só é possível devido as representações expressas nas narrativas, falas e imagens, colaborando na construção de percepções e interpretações da realidade. A exposição da violência apresenta-se como uma temática de grande audiência, no entanto, não são todos os tipos de crimes violentos que ingressam na mídia como pauta, há crimes que são exibidos e esquecidos pela mídia, enquanto outros são reforçados cotidianamente. Como é o caso das mortes violentas, pois apesar de serem um grave problema social, o destaque dado a esse tipo de criminalidade é maior que outras tipificações penais.

    A partir da análise dos telejornais foi possível perceber a presença da “fala do crime”, que explicita como essa prática de falar das violências e crimes estão presentes em nosso cotidiano por meio de histórias, notícias, piadas e brincadeiras. Essas falas do crime, mesmo que pareçam inocentes e inofensivas atingem o imaginário dos indivíduos e colaboram em suas significações e ações, assim como as representações sociais. Como o tema das violências se demonstra um campo fértil para o mercado midiático, é nessa fatia de mercado que as representações da violência e a fala do crime se instalam, ao aproximar os casos de violências das realidades cotidianas dos telespectadores, demonstrando ao telespectador que pode ser uma possível vítima, assim aumentando o medo entre a população.




   As notícias sobre os casos de violências buscam demonstrar a realidade, no entanto, com os recortes, edições, direcionamentos e manipulações, fazem com que a realidade seja distorcida ou até ocultada, quando não criada outras significações e representações. Assim, a realidade que os telespectadores têm acesso trata-se de uma realidade manipulada, em que cada detalhe apresentado possui um direcionamento e uma intenção. Essa realidade acessada pelos telespectadores passa por padrões de manipulações, que constroem a realidade exibida desde: as filmagens dos fatos, as edições e construções das reportagens, a história narrada na reportagem e falada pelos apresentadores, os títulos das notícias, as imagens, nas escolhas das pessoas entrevistadas, etc.

   A partir dos padrões globais propostos por Perseu Abramo, realizamos algumas comparações entre as reportagens de mortes violentas exibidas nos telejornais Tribuna da Massa e 24 Horas, analisando desde a apresentação aos comentários dos apresentadores e as reportagens. Assim, analisamos as maneiras de anunciarem as reportagens, a realização de "chamadas" sobre as reportagens, a maneira de exibir os corpos, de mostrarem os locais das mortes, os acusados, as entrevistas com testemunhas ou autoridades, os comentários dos apresentadores, entre outros aspectos. Também observamos o perfil das vítimas, por meio das características apontadas nas reportagens como: sexo, idade, local da morte, arma utilizada, quantidade de disparos ou golpes recebidos pelas vítimas e os horários das mortes.

    A exposição da violência na mídia pode acarretar medo. Fazendo com que o cidadão se sinta responsável por sua segurança, recorrendo muitas vezes para segurança privada, tecnologias, atenção e cuidado redobrado em suas residências e nas saídas na cidade. Alimentando assim outra parcela do mercado. A partir disso, constatamos como o direcionamento do programa e as falas do apresentador Luciano Alves, do Tribuna da Massa, retratam o município de Foz do Iguaçu como uma fronteira diferenciada, violenta, propícia para práticas ilegais. Reforçando assim o sentimento de medo e insegurança nos telespectadores, e até mesmo uma visão estereotipada sobre a localidade.

    Apesar de o telejornal 24 Horas não fazer comentários direcionados a fronteira, nota-se pelo direcionamento do programa que a maneira de exibir as reportagens reforça o sentimento de insegurança. Não é algo explícito, como ocorre no telejornal brasileiro, no entanto, há uma maior exploração do local do crime, das falas de testemunhas e familiares, aliados ao uso de músicas de entonação forte que remetem ao sentimento de suspense. Além disso, há diferenciações na maneira de demonstrar as mortes, diferenças que variam conforme o bairro em que ocorre a morte, a profissão e a classe econômica da vítima. A exposição do corpo da vítima ocorre de maneira exagerada principalmente se no momento da morte, a vítima de morte violenta estiver cometendo um crime. Nestes casos, a exposição do corpo da vítima e de sua trajetória de vida são exibidos em reportagens com duração mais longas que as demais. São construídas trajetórias de suas vidas, em que os mesmos parecem como a própria personificação do mal, e sua morte como um alívio para a sociedade. Essa atenção maior dada a esses casos, ocorre nos dois telejornais analisados.


Dados sobre a autora:

Maria Tereza Pereira da Silva, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE).

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